Pronto para decolar

Esta semana, quando a mais conceituada revista de economia do mundo – a The Economist – dedica sua reportagem de capa ao Brasil sob o título “Brasil takes off” (“O Brasil decola”), o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, em entrevista aos alunos do XX Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Estado de S. Paulo, traça um panorama do País e fala sobre crescimento, Lula e petróleo. Para o economista, o pior já passou. Ao encontro das opiniões do editorial da The Economist, Maílson concorda que o Brasil, agora, vive uma fase única de sua história – as bases prováveis que tornariam a pista livre e pronta para a decolagem. “Ficou para trás o risco de instabilidade política e econômica no Brasil. A discussão agora é ‘Como a gente faz para crescer?’”.

A aposta de Maílson para a questão acima é em um melhor entrosamento entre capital e trabalho que, segundo ele, deve começar pela educação. “O Brasil tem a mania de copiar. Então ele olha a China por for a e quer copiar o que ela está fazendo. Mas esquece que a China é resultado de uma revolução na educação, que ainda não aconteceu por  aqui”, explica.

Brasil e China, aliás, integram, com Rússia e Índia, o grupo das principais nações emergentes,  com projeções grandiosas para a próxima década. Os Brics, como são chamadas, são um conceito idealizado pelo economista Jim O’Neill em 2001. Pelas perspectivas de seu criador, o País será a 4a economia mais forte do mundo em 2050.  “O’Neill é um grande marketeiro. Os Brics são quatro países grandes, populosos, que estão conduzindo políticas econômicas responsáveis e estão crescendo muito. Se você olha do ponto de vista aritmético, daqui a quarenta anos, como a velocidade de crescimento dos quatro é maior do que a velocidade de crescimento dos países ricos, é fácil prever que eles estarão lá”.

De acordo com Maílson da Nóbrega, os sinais de que as previsões irão se concretizar já estão aparecendo. Um deles é a posição inédita do Brasil em relação às dívidas. “O Brasil entrou na crise com U$ 200 bilhões de reserva e uma dívida pública de aproximadamente U$ 190 bilhões. É credor líquido pela primeira vez na História”.

A Maldição do petróleo

Maílson é um palestrante de primeira linha. Sua fisionomia amigável e sua presença cativante aumentam ainda mais seu poder de argumentação – fundamentado em grande parte por seu conhecimento histórico. O bom humor, revelado nas constantes piadas espalhadas por seu discurso, quase disfarçam o conteúdo corrosivo de seus comentários, fazendo-os parecer inofensivos.  As palavras saem sem hesitação e tom não muda. Mesmo se ele estiver falando do presidente da República. “O Lula tem esse complexo de Adão, de achar que tudo veio dele, mas a grande contribuição do Lula foi a de não ter feito nada”. Ou ainda: “O presidente Lula tem a linguagem da quase lógica. O que ele diz não necessariamente tem lógica, mas se você não pensar direito, parece que tem”.

Graduado em ciências econômicas em 1974, Nóbrega iniciou carreira no Banco do Brasil e teve seu primeiro contato com o Ministério da Fazenda em 1979, como Coordenador de Assuntos Econômicos. O cargo de ministro só chegou nove anos depois,  durante o mandato de Fernando Collor de Melo.

Apesar de não declarar sua orientação política, suas críticas deixam perceber um clima de oposição ao governo atual. O novo embate tem como origem o regime adotado para a retirada de petróleo na área do pré-sal, a partilha. Por esse modelo, fica estabelecido que todo o petróleo descoberto é pertencente à União, que, por sua vez, deve pagar às multinacionais para explorar esse óleo. O problema, segundo Maílson, é que, embora esse tipo de regime possa dar mais lucro, os países que o seguiram são marcados pela instabilidade, como Nigéria, Irã e Iraque.

“O governo acha que o modelo tem que ser de partilha porque petróleo é estratégico. Estratégico é educação, fazer infra-estrutura, gerar emprego. Como diria Roberto Campos, petróleo não é passa de um líquido pegajoso e fedorento. Até porque os três países mais ricos do mundo são importadores de petróleo. O pré-sal é um erro muito grave. O regime de partilha repõe todas as visões da constituição de 1988. É a vingança do retrocesso”.


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