Um homem de raça e fé

Nascido e criado em Matão, interior do estado de São Paulo, Benedito Jesus Batista Laurindo – o padre Batista – deixou marcada sua história nos arredores da Praça da Sé, centro da capital paulista.

Menino negro e pobre, Benedito teve que trabalhar durante a infância para ajudar a família. Tornou-se engraxate. Menino inteligente e determinado, não se deixou, contudo, abater pelas adversidades. Queria estudar, queria ser padre. E foi. Veio para a capital cursar o ensino médio e, em 1979, formou-se em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção.

Seus ideais, sempre voltados para ajudar crianças que viviam situação semelhante à por que ele passara, chamaram a atenção do arcebispo metropolitano de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, que, em 1984, o nomeou o primeiro pároco negro da Catedral da Sé.

Àquela época, as religiões cristãs desenvolviam uma corrente chamada Teologia da Libertação, que era fundamentada nas Comunidades Eclesiais de Base -   organizações que tinham como objetivo articular a fé à busca de uma sociedade mais igualitária.

Desde o período do seminário, padre Batista costumava dividir seu tempo entre os estudos e a dedicação aos menores de rua da Praça da Sé. Seu principal foco era na formação das crianças. Procurava levar-lhes conhecimento, acompanhamento psicológico, além de – é claro – prover-lhes alimentação.

“A Praça da Sé mudou fisicamente, mas continua sendo um ponto de encontro de pessoas em situação de rua. Nos anos 80, a repressão da polícia era muito forte na região e ainda não existia o Estatuto da Criança e do Adolescente. Por isso, muitas vezes o padre Batista chegou a esconder crianças na Catedral”, diz Sinvaldo Firmo, advogado do Instituto do Negro e beneficiado pelo padre.

A verba para viabilizar a ajuda, no entanto, não vinha da Igreja, e sim de admiradores do trabalho do padre Batista, a exemplo da vice-prefeita Alda Marco Antonio e do babalorixá Pai Francisco de Oxum, cuja crença religiosa divergente não impediu a amizade com o sacerdote.

“Não existia para o Padre Batista preconceito de nenhuma espécie. O que importava é que lutassem pelos mesmos objetivos”, conta Deborah Cristina de Paula, secretária executiva do Instituto do Negro Padre Batista.

A primeira instituição fundada pelo Padre Batista foi o Centro Comunitário do Menor, no início da década de 80, no bairro da Liberdade. Contudo, tempos mais tarde, depois de anos de assistência a crianças de rua, Padre Batista transformou sua luta em uma questão racial.

Ele observou que a grande maioria da população de rua atendida era constituída por negros e, a partir dessa constatação, ele passou a se empenhar para ver a situação mudar. Ele queria ver mais negros formados, ocupando cargos melhores.  Assim, criou em 1987 o Instituto do Negro, na Rua Venceslau Brás, 78, em um prédio cedido pela Arquidiocese.

Com o apoio do Cardeal Dom Paulo, Padre Batista conseguiu recursos de organizações no exterior – entre elas  a americana  The King Center,  em memória de Martin Luther King, ícone da luta pelos direitos civis dos negros -, para financiar o projeto de seu instituto, que visava conceder bolsas de estudos para jovens negros carentes.

Sinvaldo foi um dos primeiros a se formar com o auxílio do Instituto do Negro. “Eu entrei para a faculdade de Direito de Mogi das Cruzes em 1989, já era casado e trabalhava no mercado informal paralelamente aos estudos. Mas fiquei desempregado e não tive mais condições de pagar a universidade. Ao conversar com uma amiga, ex-freira, ela me falou sobre o trabalho do Padre e eu fui procurá-lo. Ele acreditou em mim, no meu potencial, e eu consegui terminar o curso”, relata o advogado.

No entanto, para confiar as bolsas aos jovens, Padre Batista tinha uma condição: ele pedia para que os beneficiados fizessem uma corrente e, depois de formados e estabilizados, se dedicassem a ajudar outros necessitados. Hoje, Sinvaldo Firmo é advogado voluntário do Instituto do Negro Padre Batista, assim como outros que também seguiram o pedido.

Padre Batista morreu em 1991, com 39 anos, mas deixou um legado que dá,continuidade a seu trabalho e mantém sua memória acesa até hoje. Recentemente, no final de 2007, foi assinado o projeto de Lei que instituiu a “Semana Padre Batista de Combate à Discriminação Racial” e o “Prêmio Padre Batista” que têm como objetivo discutir e homenagear as iniciativas de combater o preconceito racial.

Voz de veludo

Além de todo trabalho social, Padre Batista também é lembrado por sua voz. Enquanto diácono na Catedral da Sé, posição imediatamente abaixo da do padre,  Benedito Batista também exerceu a função de mestre de capela – cuja responsabilidade é compor músicas litúrgicas.

Segundo o Padre José Enes de Jesus, que ocupa o cargo de presidente do Instituto do Negro desde a morte de Padre Batista, seria possível ainda hoje encontrar pessoas que, mesmo sem o menor conhecimento de sua luta, possam se lembrar dele pela voz. Ele explica: “Era uma voz excepcional. Inesquecível. Eu o conheci em uma missa, ainda nem tinha sido ordenado padre. Vim de Minas Gerais e não morava perto do centro, mas depois de escutá-lo a primeira vez, passei a assistir as missas sempre lá”.


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