Trocando as bolas

Por trás da bancada, chamava atenção pela habilidade com que manuseava o simulador de escavadeira. De pé, o corpo bruto, atlético, e a conversa revelaram um passado glorioso. O futebol é sua grande paixão. E o motivo de maior orgulho em sua vida, já que foi por meio dessa atividade que atingiu um sucesso inesperado. Já disputou partidas pela seleção brasileira em mundiais, olimpíadas, além da conquista de um campeonato estadual pelo São Paulo Futebol Clube em 1999. O currículo poderia ser de qualquer campeão, mas, nesse caso, trata-se de Elissandra Regina Cavalcanti, 33 anos, conhecida no meio futebolístico como Nenê. Longe dos campos desde Sydney, em 2000, Elissandra trocou a bola pelo capacete, e hoje integra o grupo de 7 mil funcionários que trabalham na construção da Usina Hidrelétrica Santo Antônio às margens do Rio Madeira, em Porto Velho, Rondônia.

Nenê nasceu na capital rondoniense em 1976 e, devido ao talento com o futebol, foi para São Paulo na adolescência jogar no clube tricolor, de onde progrediu para a seleção brasileira. Dispensada em 2000, após as olimpíadas de Sydney e a destituição da categoria feminina nos principais times do País, ela continuou na cidade trabalhando como taxista. Voltou para Rondônia apenas no ano passado para ajudar o pai na nova empreitada como confeiteiro. “Meu pai achava muito perigoso eu ficar no taxi em São Paulo. Como ele tinha aberto a loja, me chamou para trabalhar com ele”, conta.

No entanto, não foi longa sua passagem na confeitaria. Tão logo ficou sabendo do projeto de capacitação profissional para as obras da usina, decidiu se inscrever. A especialização escolhida foi em escavadeira hidráulica. Optar pelo batente pesado no lugar do trabalho tranqüilo na confeitaria também teve uma razão ideológica. “Eu acho bonito mulheres trabalhando em funções consideradas masculinas”, diz ela, que não se importa com o preconceito por que às vezes ainda esbarra. “Gosto de desafios”, explica.

E que desafios! A nova meta de Elissandra, agora, é se tornar operadora de guindastes na construção. Além do maior grau de dificuldade – o que a levaria à superação mais uma vez – chamou a atenção da ex-jogadora o valor do salário: R$ 7 mil. A contar pelas atitudes anteriores, não é difícil acreditar que ela chegará lá.

Sexo nada frágil

Dada a grandiosidade do canteiro de obras da hidrelétrica Santo Antonio – que ocupa uma área de 2,7 km² -, nada mais justo do que contar com um grande contingente de mão de obra. São quase sete mil trabalhadores reunidos com a finalidade de colocar a usina gerando energia até 2015.

A grande especificidade do empreendimento, entretanto, é a quantidade de mulheres que fazem parte desse grupo. Elas somam 14% da força de trabalho, quando, na média brasileira, esse número não passa de 2%. A exemplo de Elissandra, elas buscam superação e melhores oportunidades de vida, em uma cidade com poucos postos de trabalho e salários baixos. Na construção, um técnico pode vir a ganhar até R$12 mil.

No entanto, Fabiane Costenaro, coordenadora do Projeto Acreditar afirma que não houve nenhum incentivo direto da construtora para a contratação feminina. Segundo ela, tudo aconteceu ao acaso. “Desde o início do projeto, as mulheres começaram perguntar se podiam trabalhar. A gente achou legal e apoiou. Na verdade, não existe distinção de trabalho entre os dois sexos. Só quando a tarefa é mais pesada, e nesse caso, o que importa é a capacidade física de cada um, independente de ser homem ou mulher”, explica. E, pelo que se pode perceber, as operárias da Hidrelétrica Santo Antônio vieram para mostrar que as mulheres são um sexo nada frágil.


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